A banca quebrou no futebol brasileiro?
- Ney Junior

- há 6 dias
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Quem acompanha o futebol brasileiro nos últimos anos já percebeu a mudança: as casas de apostas, que dominaram os patrocínios master da Série A, começaram a perder espaço. Em 2026, menos clubes estampam bets no principal espaço da camisa — e a dúvida surge de forma quase automática: a banca quebrou no futebol brasileiro?
O crescimento e o recuo das bets no futebol brasileiro
O avanço das casas de apostas no futebol brasileiro foi rápido. Elas aproveitaram um período de pouca regulamentação, entre 2021 e 2023, para investirem pesado em visibilidade e encontraram no futebol o ambiente para alcançar milhões de torcedores.
Não apenas os anúncios em publicidade digital nas placas nas laterais dos estádios, mas com ativações das marcas com os torcedores que frequentavam os jogos. O Atlético Mineiro, com a Betano, em 2021, foi a primeira a aderir a esta publicidade frontal em sua camiseta, entre os clubes brasileiros.
Durante esse período, o patrocínio de bets no futebol brasileiro atingiu valores recordes, tornando-se a principal fonte comercial de muitos clubes da Série A, inclusive o Palmeiras, que não renovou, em 2025, seu patrocínio de uma década com a Crefisa, em nome de um contrato ainda mais vantajoso com a SportingBet.
Dos vinte clubes que disputaram a Série A do Brasileirão 2025, apenas o Mirassol não tinha casa de apostas como patrocínio master - segue o Guaraná Poty na camisa amarela do time do interior paulista - e o Red Bull Bragantino, com a marca multinacional austríaca de energéticos, sua mantenedora.
Mas o cenário começa a mudar.
Regulamentação e impacto no patrocínio master da Série A
A regulamentação do setor, através da Lei nº 14.790/2023, em vigor desde 2025, trouxe novas exigências legais, como a tributação de 12% a 15%, escalonada até 2028, maior fiscalização, prevenção de crimes e proteção ao consumidor, inclusive com mensagens de conscientização de que o jogo é recreativo e não solução financeira.
Isso elevou os custos de operação das casas de apostas e reduziu a margem para investimentos agressivos em marketing esportivo, devido a um retorno financeiro menor do que o previsto. O foco passou para os anúncios durante as transmissões e intervalos na televisão, e nos principais realities show brasileiros - a Betano patrocina A Fazenda e Big Brother Brasil.
Com disso, o mercado passou por um processo de consolidação. Menos empresas ativas, seja por incorporações ou desistências do mercado brasileiro, significa realinhamento da concorrência pelos contratos de patrocínio master na Série A, o que, naturalmente, derrubou valores e reduziu a presença das bets nas camisas, inclusive por inadimplência.
Os atrasos nos repasses da AlfaBet, que tinha contrato com o Grêmio e o Internacional, nos últimos três meses de 2025, levou os rivais a rescindirem seus respectivos contratos com a empresa: o Tricolor dos Pampas, em novembro de 2025; o Colorado, no início de 2026. O Grêmio utiliza a mensagem Clube de Todos, que reforça o marketing de clube da inclusão, nos profissionais, e Marquespan, nas categorias de base. O Inter, por enquanto, não utiliza marca na posição mais nobre de patrocínio.
Além dos rivais gaúchos, Coritiba, Santos e Vasco negociam novos patrocinadores para estamparem suas camisetas.
O impacto para os clubes brasileiros
Para os clubes, a dependência excessiva das casas de apostas trouxe um risco claro: receitas altas, mas pouco sustentáveis. Com o recuo das bets, os departamentos de marketing precisam buscar novos segmentos, diversificar patrocinadores e reavaliar o valor real de seus ativos comerciais.
Este movimento também abre espaço para marcas de outros setores voltarem a investir no futebol, como o Banco BMG, que acertou um contrato de três anos com o Bahia, e volta a patrocinar um clube da primeira divisão brasileira após seis anos.
A banca quebrou ou o mercado amadureceu?
As bets não vão desaparecer do futebol brasileiro, pelo menos em um curto espaço de tempo. O que acontece é uma mudança de fase: menos exageros, contratos mais realistas e foco em retorno sustentável, em uma cultura de futebol de altíssimas dívidas e receitas pouco diversificadas.
A banca não quebrou, mas o jogo mudou.









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